Compaixão Para Os Novos Tempos

por Moira Malzoni, cofundadora do Momento Moved by Mindfulness

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Em um panorama pós-pandemia e diante de todos os desafios que já tínhamos como sociedade, como os temas da compaixão, do altruísmo e da empatia serão incorporados nos próximos anos? Eles serão centrais na nova cultura que desejamos desenvolver? Como a compaixão vai permear a forma de nos relacionarmos em sociedade e os processos nos mais diversos campos, como a política, a economia e o meio ambiente? De que maneira viveremos daqui para a frente? Na minha visão, essas perguntas são mais relevantes do que nunca e encarar esse desafios com consciência é um caminho sem volta.

A pandemia colocou uma lente de aumento em questões que já existiam e se tornaram ainda mais evidentes. Um vírus surgido na China rapidamente se espalhou por todo o planeta, explicitando a maneira como estamos todos interligados e interdependentes. Algo que acontece do outro lado do mundo, de uma hora para outra, tem impacto global e transforma radicalmente o modo de vida que conhecíamos até então. Estamos todos juntos, mas cada um em seu quadrado – em nome da saúde coletiva.

O isolamento social foi uma oportunidade para mergulharmos dentro de nós mesmos e refletirmos sobre qual sociedade desejamos viver. Queremos aprender a lidar melhor com as nossas emoções? Queremos melhorar as nossas relações com os que estão à nossa volta e o nosso impacto como humanidade no planeta? Espero que sim. É chegada a hora de partirmos para um salto em direção a uma nova civilização.

Construir essa nova realidade é fruto de um processo de escolha. É algo que se constroi a partir da consciência que desenvolvemos ao observarmos as coisas com atenção plena e presença. Em percebermos que somos parte de algo maior, enxergando a nossa existência como parte de um grande organismo vivo, que funciona de forma interdependente. Em desenvolvermos a habilidade da compaixão, que pode ser definida como “a emoção que se experimenta quando nos sentimos preocupados com o sofrimento do outro e desejamos melhorar o bem-estar desse indivíduo” (Keltner e Goetz, 2007).

A oportunidade surge quando nos permitimos entrar em contato com nossos valores internos, com nossa real natureza e, a partir da tomada dessa consciência, partimos para a ação. Está claro que não é algo rápido e fácil de ser feito, mas e se nos organizarmos para fazer isso coletivamente? Muitas pessoas e organizações em diversos países já deram início a esse movimento.

Uma iniciativa começou na Inglaterra: o Compassion in Politics. Trata-se de uma organização multipartidária que trabalha para colocar a compaixão, a inclusão e a cooperação no centro da prática política. No Brasil, temos um projeto embrionário do grupo de instrutores de CCT (Compassion Cultivation Training©), o CCT Brasil, sob o título: Compaixão na Política.

Na Alemanha, o Max Planck Institute for Human Cognitive and Brain Sciences, em Leipzig, liderado pela cientista Tania Singer, vem pesquisando o tema da compaixão e do cuidado na economia. O livro “Caring Economics” (economia do cuidado, em tradução livre), organizado Tania e Matthieu Ricard, faz uma ampla discussão de base científica sobre a economia e o altruísmo. Cada capítulo foi escrito por um especialista na área e a publicação traz ainda uma reflexão do líder budista Dalai Lama a respeito do tema.

Na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, foi criado um centro de pesquisa e educação sobre altruísmo dentro do Departamento de Neurocirurgia da Escola de Medicina da instituição. O Center for Compassion and Altruism Research and Education, ou CCARE, foi fundado em 2008 pelo Dr. James Doty. Em 2019, o professor Ph.D Thupten Jinpa criou um programa de treinamento de cultivo da compaixão, hoje difundido em cursos para pessoas e para empresas. O CCARE une neurocientistas, cientistas comportamentais, geneticistas e pesquisadores biomédicos proeminentes para examinar de perto os correlatos fisiológicos e psicológicos da compaixão e do altruísmo.

Compaixão não é ter pena, não é se envolver de tal modo com o sofrimento do outro que nos misturamos a ele e perdemos o controle da situação. De acordo com o Compassion Institute, ter compaixão é primeiro termos consciência do sofrimento do outro e então desenvolvermos a motivação para aliviar e prevenir esse mesmo sofrimento. Trata-se de um processo para a ação e não apenas uma emoção que sentimos passivamente.

Podemos pensar a compaixão como um traço inato em todas as pessoas, que pode ser explicado pela nossa necessidade de cooperação enquanto humanidade. Nossa capacidade de sentir compaixão garantiu a sobrevivência e o desenvolvimento da nossa espécie por milênios. A boa notícia é que essa habilidade pode ser aprimorada. O treinamento desenvolvido em Stanford, chamado CCT™ (Compassion Cultivation Training©), ensina como cultivar a atitude e como praticá-la na vida cotidiana, inspirando a ação compassiva por nós mesmos e pelos outros: em casa, no ambiente de trabalho e na vida em sociedade.

Cultivar a compaixão como prática diária ajuda os indivíduos a  enfrentarem relacionamentos desafiadores e a gerenciarem o estresse da vida moderna. Estudos científicos apontam benefícios como a diminuição de sentimentos como raiva e ansiedade e há relatos, inclusive, da diminuição da severidade de dores crônicas. Por outro lado, percebeu-se o aumento da sensação de calma, da autoaceitação e da aceitação dos outros, assim como de uma melhor satisfação no ambiente de trabalho.

            Que esse período tão doloroso da pandemia pelo qual estamos passando nos sirva para abrirmos novos caminhos em direção a uma sociedade mais empática, altruísta e compassiva. Melhorando a vida dos outros, melhoramos a vida de nós mesmos.